O Grande Pecado

Pr. Alexsandro dos Reis Fernandes

Desde que começamos a compreender o mundo à nossa volta, a palavra ‘pecado’ gera em nós grande desconforto, possivelmente por trazer implícita a ideia de algo errado, constrangedor e desencadeador de problemas. No texto a seguir abordaremos o tema, especificamente, um tipo grave de pecado, certamente, o maior dentre todos: o orgulho.

Cumpre preliminarmente asseverar que toda ação ou omissão contrária aos ensinamentos bíblicos insere-se no conceito de pecado. Sobre ele a Wikipédia se expressa da seguinte maneira:

“O termo pecado é comumente utilizado em contexto religioso para descrever qualquer desobediência à vontade de Deus; em especial, qualquer desconsideração deliberada de leis divinas. No hebraico e no grego comum, as formas verbais (em hebr. hhatá; em gr. hamartáno) significam “errar”, no sentido de errar ou não atingir um alvo, ideal ou padrão. Em latim, o termo é vertido por peccátu.”

O apóstolo João, de forma não menos clara e simples, define pecado como sendo a “transgressão da Lei”, ou seja, a violação de um preceito bíblico (I Jo 3:4).

Delineado o conceito de pecado, de forma simplória, porém, suficiente para nossas pretensões, nos deparamos com duas questões que o permeiam: os pecados obedecem a algum tipo de hierarquia, ou, em outros termos, existem pecados mais graves do que outros? E, ainda, existe algum tipo de vício superior ou originário dos demais?

À primeira questão, ousamos afirmar que, em geral, não há que se cogitar em hierarquia de pecados. Todo tipo de transgressão desagrada ao Senhor e, infalivelmente, produz efeitos negativos. A diferença entre elas (transgressões) repousa exatamente neste último aspecto, ou seja, nos efeitos, vez que algumas posturas humanas geram consequências mais graves do que outras, não somente para os transgressores como também para aqueles que estão ao redor.

Com relação ao segundo questionamento, contudo, somos categóricos em responder positivamente. Há, portanto, um tipo pecado do qual derivam todos os demais. Trata-se de orgulho e sobre ele nos debruçaremos a seguir. C.S. Lewis vai ao encontro dessa assertiva, ao afirmar que:

“O vício fundamental, o mal supremo, é o orgulho. A devassidão, a ira, a cobiça, a embriaguez e tudo o mais não passam de ninharias comparadas a ele. É por causa do orgulho que o diabo se tornou o que é. O orgulho leva a todos os outros vícios; é o estado mental mais oposto a Deus que existe (Cristianismo Puro e Simples, Martins Fontes, Edição de bolso, pg. 162 – destaque nosso).”

O salmista explica que os orgulhosos estão cheios de si e seus pensamentos, por conseguinte, andam muito distantes de Deus. Ele afirma que “pela altivez do seu rosto o ímpio não busca a Deus; todas as suas cogitações são que não há Deus” (Sl 10:4).

O orgulho tem como contraponto a humildade, tão admirada por Deus que Cristo a apresenta como credencial indispensável ao ingresso no Reino dos céus (Mt 5:3 ) e, ainda, como precursora de todas as outras bem-aventuranças (Mt 5:4-12).

John Wesley define os humildes de forma magnifica no trecho abaixo:

“Aquele que é pobre em espírito não depende de suas posses materiais. Não consegue dizer: ‘Sou rico e abastado em bens; de nada careço’. O pobre de espírito sabe que é desprezível, pobre, miserável, cego e nu. Tem convicção de que é de fato espiritualmente pobre. Sabe que nele não habita nenhum bem espiritual. Ele diz: ‘Nada de bom habita em mim, somente o que é mau e abominável’. Possui um profundo senso do pecado repulsivo que o envolve desde o nascimento. Sabe que o pecado recobre a alma e corrompe totalmente cada poder e faculdade. Ele vê, mais e mais, os maus impulsos que brotam daquela raiz maligna. Tem consciência de seu orgulho e de sua arrogância de espírito. Sabe de sua constante inclinação para pensar de si mesmo mais do que convém. Está convencido de sua vaidade e da sede de estima e honra que vem dos homens. Sabe que possui ódio, inveja, ciúmes, vingança, ira, maldade e amargura. Admite uma inimizade inata contra Deus e contra os homens, que aparece em milhares de formas. Reconhece que ama o mundo em vez de amar a Deus. Confessa a vontade própria, os desejos tolos e nocivos agarrados ao fundo de sua alma. Está ciente de quanto ofende a Deus e os homens com suas palavras. Se não for culpado de palavras profanas, insolentes, mentirosas ou descorteses, é culpado de conversas que não edificam nem glorificam a Deus. Ele sabe que sua fala tem sido útil na administração da graça aos ouvintes. […]. A pobreza em espírito, portanto, é um justo senso de pecado interior e exterior. É o reconhecimento da nossa verdadeira culpa e impotência. Esse é o primeiro passo que damos na corrida espiritual à nossa frente.” (O Sermão do Monte, Editora Vida, pg 69)”

Os humildes, em suma, têm a convicção plena de que são pecadores, tem consciência plena de sua incapacidade de serem bons, a menos que Deus esteja com eles, são, finalmente, avessos ao louvor dos homens pois sabem que só a Deus, fonte de todas as coisas, pertence todo louvor.

A QUEDA DE LÚCIFER

A descrição figurativa da queda de Lúcifer , apresentada por Ezequiel (28:11-19), surge como um dos mais emblemáticos e trágicos exemplos dos malefícios gerados pelo orgulho. O profeta inicia seu relato descrevendo quão maravilhoso era Lúcifer, sua inigualável beleza e superioridade em relação ao demais seres angelicais, a saber:

“Você era o modelo da perfeição, cheio de sabedoria e de perfeita beleza. Você estava no Éden, no jardim de Deus; todas as pedras preciosas o enfeitavam: sárdio, topázio e diamante, berilo, ônix e jaspe; safira, carbúnculo e esmeralda. Seus engastes e guarnições eram feitos de ouro; tudo foi preparado no dia em que você foi criado.” (v.12b-13)

Ezequiel prossegue afirmando que Lúcifer era “modelo de perfeição”, “cheio de sabedoria” e “ungido como um querubim guardião”. Diz ainda que estava ele no “monte Santo de Deus”, caminhando entre as pedras fulgurantes, sendo por fim, “inculpável em seus caminhos desde o dia de sua criação” (v.14-15). Lúcifer era realmente um ser incrível!

No entanto, num determinado momento, Lúcifer se rebelou contra Deus. O profeta Isaías descreve tal fato da seguinte maneira:

“[..]. Subirei aos céus; erguerei o meu trono acima das estrelas de Deus; eu me assentarei no monte da assembleia, no ponto mais elevado do monte santo. Subirei mais alto que as mais altas nuvens; serei como o Altíssimo.” (14:13-14)

Lúcifer, por conta de sua elevada posição e beleza, se encheu de orgulho, foi tomado pela soberba, insurgindo-se ao ponto de entender que poderia alcançar patamar ainda mais alto e posicionar-se acima, inclusive, do próprio Deus.

Com relação a esse aspecto, lembra C. S. Lewis que:

“[…] o orgulho é essencialmente competitivo – por sua própria natureza -, ao passo que os outros vícios só o são acidentalmente, por assim dizer. O prazer do orgulho não está em se ter algo, mas somente em se ter mais que a pessoa ao lado. Dizemos que uma pessoa é orgulhosa por ser rica, inteligente ou bonita, mas isso não é verdade. As pessoas são orgulhosas por serem mais ricas, mais inteligentes e mais bonitas que as outras. Se todos fossem igualmente ricos, inteligentes e bonitos, não haveria do que se orgulhar. É a comparação que torna uma pessoa orgulhosa: o prazer de estar acima do restante dos seres. Eliminado o elemento de competição, o orgulho se vai. […]. Se sou um homem orgulhoso, enquanto existir alguém mais poderoso do que eu, ou mais rico, ou mais esperto, esse será meu rival e meu inimigo. (Cristianismo Puro e Simples, pg 163/164)

A postura adotada por Lúcifer nos força a concordar com o ilustre teólogo. Era aquele extremamente belo, sábio e poderoso, porém, ambicionou ser ainda mais belo, mais sábio e mais poderoso do que seu criador, seu parâmetro de comparação e com o qual, a seu modo, competia.

Por conta de sua rebelião, Lúcifer foi imediata e sumariamente lançado para fora da presença de Deus que, ainda, relegou ao mesmo um terrível destino por ocasião a consumação dos séculos:

“Você era inculpável em seus caminhos desde o dia em que foi criado até que se achou maldade em você. […] você se encheu de violência e pecou. Por isso eu o lancei, humilhado, para longe do monte de Deus, e o expulsei, ó querubim guardião, do meio das pedras fulgurantes. Seu coração tornou-se orgulhoso por causa da sua beleza, e você corrompeu a sua sabedoria por causa de seu esplendor. Por isso eu o atirei à terra; fiz de você um espetáculo para os reis.” (Ez 28:15-17 – destaques nossos)

Lúcifer, por conta do orgulho, transformou-se em Satanás, deixou a condição de “Anjo de Luz” para se tornar o “Príncipe das Trevas”, confirmando a assertiva segundo a qual “a soberba precede a ruina, e a altivez do espírito precede a queda” (Pv 16:18-19).

Muito embora não tenhamos a intenção de aprofundar no tema, cremos ser oportuno ressaltar algo aparentemente claro: Deus não criou Satanás. A Bíblia noticia e detalha a criação de Lúcifer, como visto acima, envolto em grande formosura, sabedoria e dotado de livre arbítrio. Em momento algum encontramos o texto sagrado dizendo que Deus tenha criado Satanás. Antes que Lúcifer se rebelasse contra Deus, Satanás sequer existia. Este surgiu e foi, por assim dizer, consequência da rebelião de Lúcifer contra Deus. Portanto, devemos atribuir a Lúcifer, não ao Senhor, a “paternidade” de Satanás.

Entendimento diferente nos conduziria a acreditar que Deus teria criado também o mal, algo ainda mais terrível. Por conseguinte, atribuiríamos a Ele a responsabilidade por todas as tragédias que assolaram e, ainda, assolam a humanidade, as quais, em sua esmagadora maioria, são na verdade consequências de escolhas erradas do próprio homem, do equivocado exercício de seu livre arbítrio.

Deus é bom, Deus é amor e a partir desses incontroversos fatos, por questão de lógica e de coerência, somos forçados a concluir que TODAS AS SUAS OBRAS SÃO BOAS. Poderia (Ele pode tudo), mas não criou o mal e tampouco um ser tão nefasto como Satanás.
Albert Einstein, no auge de sua genialidade, certa vez afirmou o seguinte:

“O mal não existe por si mesmo. O mal é simplesmente a ausência do bem. […] o mal é uma definição que o homem criou para descrever a ausência de Deus. Deus não criou o mal. O mal é o resultado da ausência de Deus no coração dos seres humanos. Tal e qual como acontece com o frio quando não há calor, ou com a escuridão quando não há luz. (destaque nosso)”

Sábias palavras.

A QUEDA DO HOMEM

Outro episódio que ilustra com maestria os irremediáveis danos desencadeados pelo orgulho e pela soberba, é a narrativa da queda do homem a qual, diga-se de passagem, guarda estreita semelhança com a queda de Lúcifer.

O texto sagrado, de início, informa que o Senhor Deus formou o homem do pó da terra, soprando em suas narinas o fôlego de vida. Prossegue descrevendo que havia o Senhor plantado um jardim no Éden, colocando ali o homem e fazendo nascer todo tipo de árvores agradáveis aos olhos e boas para comer. (Gn 2:7-9).

De forma maravilhosa Deus criara sua obra-prima, o homem. Concomitantemente, lhe fornecia condições necessárias para viver bem, colocando-o num lugar onde absolutamente nada lhe faltaria e onde dominaria sobre todos os demais seres. Mas, Deus não parou por aí! Incomodado com a solidão do homem, formou a mulher que o acompanharia e o ajudaria. Para ‘fechar com chave de ouro’, resolveu o Senhor que manteria com o casal um íntimo, direto e constante relacionamento.

Mas, aquele magnifico cenário, num certo instante, não agradou mais a Adão e Eva. Tudo aquilo parecia pouco aos seus olhos e os dois passaram a desejar algo mais, especificamente aquilo que o Senhor havia reservado exclusivamente para Si, ao proibi-los de comer do fruto da árvore do conhecimento do bem e do mal (Gn 2:17). O casal passou a questionar a restrição imposta pelo Senhor e, instigado pela serpente, personificação de Satanás no Éden, tomou e comeu o fruto proibido.

O texto abaixo detalha parte do ocorrido e revela ao final o verdadeiro desejo do casal:

“Disse a serpente à mulher: “Certamente não morrerão!” Deus sabe que, no dia em que dele comerem, seus olhos se abrirão, e vocês, como Deus, serão conhecedores do bem e do mal.” (Gn 3:4-5 – destaque nosso)

Assim como Lúcifer, Adão e Eva se encheram de orgulho ante os privilégios que possuíam, se ensoberbeceram a ponto de ambicionarem aquilo que não lhes era deferido, quiseram ser ‘como Deus’! As terríveis consequências disso se estenderam por toda a humanidade, custando, inclusive, a vida de Cristo, levado à cruz sem pecado algum para que pudéssemos ter de volta a oportunidade de viver a eternidade ao lado do Senhor, oportunidade esta que o primeiro casal nos tirou.

O PUBLICANO E O FARISEU

Jesus era um exímio professor e utilizava com maestria as parábolas como técnica de ensino. Numa delas descreve as posturas adotadas por dois indivíduos: um fariseu e um publicano.

“A alguns que confiavam em sua própria justiça e desprezavam os outros, Jesus contou esta parábola: “Dois homens subiram ao templo para orar; um era fariseu e o outro, publicano. O fariseu, em pé, orava no íntimo: ‘Deus, eu te agradeço porque não sou como os outros homens: ladrões, corruptos, adúlteros; nem mesmo como este publicano. Jejuo duas vezes por semana e dou o dízimo de tudo quanto ganho’. “Mas o publicano ficou à distância. Ele nem ousava olhar para o céu, mas batendo no peito, dizia: ‘Deus, tem misericórdia de mim, que sou pecador’. “Eu lhes digo que este homem, e não o outro, foi para casa justificado diante de Deus. Pois quem se exalta será humilhado, e quem se humilha será exaltado”. (Lc 18:9-14)

Jesus inicia a estória descrevendo, primeiramente, um típico e dedicado religioso que, convencido de sua bondade, louva a Deus por não ser um pecador como os demais indivíduos. Ele jejua dois dias na semana, conforme diz o texto, apresenta-se piedoso, é dizimista fiel, cumpridor de todos os costumes apregoados pela Lei Mosaica.

O publicano, por sua vez, reconhece explicita e publicamente sua triste condição humana, clamando pelo socorro do Senhor. Orava de pé, de cabeça baixa, mas não ousava erguer os olhos tamanha a sua vergonha.

Estavam ali, lado a lado, o justo fariseu e o pobre pecador publicano. Aquele, cheio de si, contente com sua condição, autossuficiente, se auto proclamando superior aos demais indivíduos e este, lado outro, ciente de sua miséria, clamando pelo amparo do Senhor.

O veredicto de Jesus não deixa dúvidas quanto a qual daqueles homens retornou ao lar justificado. A soberba, arrogância e prepotência do fariseu haviam despertado a rejeição do Mestre em relação a ele, enquanto a postura humilde do publicano O agradara sobremaneira.

Diante de Deus não somos nada nem ninguém, nenhuma de nossas obras merece exaltação, por melhores que sejam. O profeta Isaías chega a dizer que os nossos atos de justiça são como trapo imundo! (Is 64:6). Só nos cabe mesmo fazer como o publicano e em todo tempo clamar: Deus, tem misericórdia de nós!

ORGULHO QUEBRADO

Desde muito cedo, o apóstolo Paulo recebeu formação rabínica, sendo criado em meio aos rigores das normas farisaicas, extraídas do Pentateuco e dos ensinamentos deixados pelos profetas. Foi aos poucos se enchendo de orgulho, típico dos judeus de sua época, que se julgavam superiores em relação aos não judeus por descenderem de Abraão.

Os ensinamentos de Jesus, em especial após sua morte, começaram a se espalhar rapidamente através do incansável trabalho dos apóstolos. Muitos destes ensinamentos incomodavam os líderes religiosos que viam o Cristianismo como uma perigosa seita, cujo líder havia sido crucificado num madeiro .

Paulo, ferido em seu orgulho religioso e nacionalista, iniciou uma implacável perseguição contra os cristãos. Atos dos Apóstolos descreve em várias passagens sua atuação, indo de casa em casa e mandando jogar na cadeia homens e mulheres (At 8:3), incentivando que fossem proferidas sentenças de morte contra cristãos (At 22:4; 26:10), obrigando-os a negarem sua fé (At 26:11) e ordenando seu aprisionamento (At 22:19). Paulo conseguiu até mesmo autorização para perseguir cristãos em Damasco (At 9:2), ou seja, fora dos limites geográficos de Jerusalém, contando, inclusive, com a anuência do Concilio de Judeus (At 22:5).

A caminho de Damasco Paulo tem um encontro pessoal com Cristo; é repentinamente envolvido por uma forte luz, cai no chão e ouve a voz do Senhor o interpelando: “Saulo, Saulo, por que você me persegue?” (At 9:4). Atordoado, Saulo é conduzido até a cidade – ficara temporariamente cego pela forte claridade – onde permanece sob os cuidados daqueles a quem perseguia. Saulo, por algum tempo, vive na total dependência dos cristãos que, até então, odiava tanto.

Deus quebranta o coração orgulhoso do apóstolo, retira toda sua soberba, arrogância e altivez, iniciando com isso seu processo de preparação para o próspero ministério que, em breve, lideraria. Durante os dias seguintes ao seu singular e impactante encontro com Jesus, Saulo ora, jejua e reavalia suas convicções. Seus valores mudam e aquele homem se torna um servo totalmente rendido, humilde e dependente do Senhor, fervoroso defensor do Cristianismo.

Supérfluo lembrar a extensão daquilo que Deus fez através de Paulo após sua conversão; impossível mensurar aquilo que faz e ainda fará por intermédio de seu testemunho contado no texto bíblico. Mas, isso só foi possível a partir do momento que Paulo foi despojado da personalidade outrora dominada pelo orgulho.

Interessante lembrar que Paulo sempre corria risco de se contaminar novamente por esse maldito vício. Como presenciava e tomava parte de grandes feitos realizados pelo Senhor, recebia revelações e era, ainda, um poderoso instrumento nas mãos de Deus, ou seja, a possibilidade de que se ensoberbecesse era bastante real. O texto abaixo deixa isso muito claro, demonstrando também a forma dura, porém, eficaz utilizada por Deus para impedir que isso se consumasse, verbis:

“Para impedir que eu me exaltasse por causa da grandeza dessas revelações, foi-me dado um espinho na carne, um mensageiro de Satanás, para me atormentar. Três vezes roguei ao Senhor que o tirasse de mim. Mas ele me disse: “Minha graça é suficiente para você, pois o meu poder se aperfeiçoa na fraqueza”. Portanto, eu me gloriarei ainda mais alegremente em minhas fraquezas, para que o poder de Cristo repouse em mim. Por isso, por amor de Cristo, regozijo-me nas fraquezas, nos insultos, nas necessidades, nas perseguições, nas angústias. Pois, quando sou fraco é que sou forte. (2 Co 12:7-10 – destaque nosso)”

Carece destaque o fato de que Deus chega ao ponto de negar um simples pedido de cura feito em desespero, diga-se de passagem, pelo maior de todos os apóstolos, servo dedicado que após se converter passou a viver para Deus. A razão para isso é simples: era essencial que Paulo se mantivesse humilde. Sempre que fosse incomodado por esse “espinho”, Paulo se lembraria disso, que deveria manter-se dependente, não de si próprio, de seus atributos, mas apenas e tão somente da graça e da misericórdia do Senhor.
Deus realmente exalta os humildes. E resiste fortemente aos soberbos (Tg 4:6).

O CENTRO DE TODAS AS COISAS

Toda narrativa empreendida até aqui nos conduz a uma simples conclusão, aliás, implícita (e, não raro, explicita) em todo contexto bíblico: Todas as vezes que o homem – e até mesmo um querubim – tirou o Senhor do centro de sua vida, naufragou. Sempre que o homem – e até mesmo um querubim – se encantou com seus atributos pessoais, deixando de reconhecer sua fonte divina, caiu.

Tanto Lúcifer quanto Adão e Eva se encantaram sobremaneira com aquilo que viram refletido no espelho, sentiram-se bons e poderosos, entenderam equivocada e tragicamente que poderiam declarar-se independentes em relação a Deus e tomar as rédeas de suas próprias vidas. A seus olhos, se bastavam, não precisavam de Deus.

O evangelho genuíno caminha em sentido diametralmente oposto, deixando claro que o caminho para a paz, alegria e prosperidade está, não na independência, mas sim na total dependência do homem em relação a Deus. A vida do apóstolo Paulo demonstra isso de forma cabal e inequívoca.

O Senhor precisa ocupar o centro de nossas vidas! Quando tentamos tomar esse lugar a derrota, em regra, é certa!
Pertinente, ao ensejo, o alerta tangente a uma perigosa “praga” que tem invadido e, rapidamente, se alastrado no meio cristão. Trata-se da “autoajuda”, ou seja, prática que apregoa o uso de recursos humanos, físicos ou mentais, como meio para se alcançar objetivos, via de regra, materiais e psicológicos.

Os jargões da “autoajuda”, muito comuns no mundo corporativo – onde até funcionam bem – e nas palestras motivacionais, em regra seguem um padrão: “Acredite em você mesmo e vença no mundo! Tome consciência de suas capacidades! Deixe que o mundo te veja e reconheça! Você é um vencedor! Busque dentro de você mesmo as respostas! Elas estão aí!”

O grande problema e perigo da “autoajuda” reside no fato de que, na esmagadora maioria das vezes, retira Deus do centro da vida humana e coloca em seu lugar o próprio homem e seus atributos. Assim fizeram Adão, Eva, Saul, Sansão e tantos outros personagens bíblicos. Alguns, a bem da verdade, viveram momentos de sucesso; foram, porém, marcados ao final por retumbantes derrotas e fracassos.

CONCLUSÃO

Gostaríamos de recorrer novamente a C. S. Lewis para dizer que a principal causa da infelicidade humana é, sem dúvida alguma, o orgulho. Como afirma o ilustre teólogo, ele (o orgulho), “é a própria inimizade, não somente inimizade entre homens, mas também e principalmente, entre o homem e Deus”.

O orgulho transformou um ser angelical, formoso, sábio no grande opositor de Deus e dos homens; fez com que Adão e Eva abrissem mão de uma vida plena ao lado do Senhor e, consequentemente, lançassem uma terrível maldição sobre a humanidade. O orgulho é o responsável por inúmeros outros fracassos vivenciados pelo povo de Deus.

Deste “estado mental mais oposto a Deus que existe”, derivam todos os demais vícios, os quais não passam de meros sintomas da verdadeira doença que insiste em corroer o homem ao longo da história.

O orgulho é um perigo constante, inimigo contra o qual devemos lutar em todo o tempo, primeiramente, reconhecendo que somos, vez ou outra, vencidos por ele, que muitas vezes retiramos o Senhor do centro de nossas vidas e tentamos ocupar esse lugar. Em seguida, reconhecendo que sem Deus não somos nada!

Lewis afirma que “se alguém quer adquirir a humildade […] o primeiro passo é reconhecer o próprio orgulho. Aliás, é um grande passo. O mínimo que se pode dizer é que, se ele não for dado, nada mais poderá ser feito. Se você acha que não é presunçoso, isso significa que você é presunçoso demais.”

Tudo que temos, tudo que somos provém de Deus. Portanto, Ele deve ocupar em todo tempo o centro de nossas vidas.

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